Por Gustavo Carvalho e
Karina Fernandes
O casal Érica e Breno em uma foto antiga (Foto: Luis Alvarenga/Agência O Globo)
Major fumou cigarro depois de assassinar a ex-mulher
Três anos e quatro meses após cometer um dos crimes mais emblemáticos e cruéis de violência contra a mulher no Estado, o major da Polícia Militar, Breno Perroni Eleutério, 40 anos, sentou no banco dos réus nesta segunda-feira (09/05/2011), às 9h, no Fórum de Niterói.
Ele foi à júri popular pelo assassinato da ex-mulher, a bancária Érica de Almeida Marques, 33, prima do ator Eri Johnson, executada com 15 tiros de pistola – oito deles no rosto – ao buscar seu filho de um ano na casa do ex-marido, no Barreto, Zona Norte de Niterói. Ela estava separada há um ano do PM e já havia sido ameaçada, agredida e sequestrada pelo ex-companheiro, que não se conformava com o fim do relacionamento.
O réu foi levado a júri popular na 3ª Vara Criminal de Niterói, no Centro. O julgamento foi comandado pelo juiz Peterson Barroso Simão. A família de Érica, que era prima do ator Eri Johnson, foi representada pelo promotor Leandro Navega e pelo defensor público Denis Sampaio.
Covardia – O crime ocorreu por volta das 10h do dia 29 de dezembro de 2007. A pedido do próprio Breno, a bancária seguiu para a residência do ex-companheiro, localizada na Rua Galvão, para buscar o filho, com quem passaria o réveillon. Acompanhada da irmã, a comerciante Cláudia Marques, 40, e de seu outro filho, a vítima parou o carro na entrada da rua e seguiu para a casa do policial, onde foi recebida a tiros.
“Quando ouvi os disparos, tive a certeza de que era ele atirando na minha irmã. A esperança era de que todos aqueles tiros tivessem sido para o alto. Fiquei atônita e sem ação durante alguns minutos. Quando consegui seguir com o carro, já encontrei minha irmã morta em frente à casa dele”, recorda a comerciante.
Cigarro – Segundo testemunhas, ao perceber que Breno estava armado, Érica ainda tentou correr, mas foi atingida nas costas. Caída na calçada, ela teria implorado para não ser morta, mas o ex-marido efetuou outros oito disparos em seu rosto. Após cometer o crime, ele ainda acendeu um cigarro e entrou tranquilamente em casa, onde vestiu sua farda. Em menos de 10 minutos, uma viatura da PM apareceu no local do crime para conduzi-lo à 78ª DP (Fonseca). Ao recebê-lo, os colegas de farda ainda prestaram continência ao major.
“Fiquei indignada quando vi aquela cena. Minha irmã morta daquela forma bárbara e eles ainda preocupados com o ritual”, criticou.
Prisão – Na delegacia, Breno alegou ter agido em legítima defesa, afirmando que Érica o teria ameaçado de morte para ficar com o bebê. O oficial foi autuado por homicídio duplamente qualificado, com dois agravantes: motivo fútil e sem chance de defesa para a vítima. De acordo com a assessoria de imprensa da PM, ele permanece no Batalhão Especial Prisional (BEP), em Benfica, onde aguarda decisão das justiças Civil e Militar.
Ela ficou seis horas sob a mira de uma arma
Segundo familiares, a morte de Érica foi anunciada e premeditada por Breno. Durante os três anos de relacionamento, ela era submetida a agressões físicas e psicológicas pelo companheiro. Sob ameaças de morte, o PM a obrigou a passar a guarda do filho para ele. Com medo, Érica cedeu. O estopim para a bancária denunciá-lo ocorreu após ela ficar durante seis horas sob a mira de uma arma.
“Ele chamou a Érica para conversar sobre o filho e a levou para o Parque da Cidade, onde a colocou de joelhos em uma ribanceira ameaçando matá-la, caso ela não reatasse o casamento. Após seis horas de terror psicológico, ela resolveu voltar”, lembra Cláudia.
No dia seguinte, Érica e a irmã seguiram para a 2ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM), onde denunciaram o major. As agressões também foram registradas na Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de Niterói.
“Por negligência do Estado, ele não ficou preso administrativamente e não houve qualquer medida protetiva da Justiça para evitar o que ele fez. Nada vai trazer a Érica de volta, mas espero que a justiça seja feita e ele cumpra pelo crime que cometeu”, disse Cláudia.
Após a luta por uma pena rigorosa para o acusado, a irmã da vítima também pretende entrar na justiça para ter o direito de visitar o sobrinho. “Não o vejo há mais de três anos e esta será minha próxima batalha”, encerrou.
Major da PM Breno Perrone Eleutério foi condenado
Julgamento - O major da PM Breno Perrone Eleutério foi condenado, nesta segunda-feira (09/05/2011), a 23 anos de prisão pela morte da ex-mulher Érica de Almeida Marques, de 34 anos, em 29 de dezembro de 2007.
“Depois de tanto tempo, agora acabou a ansiedade”, disse o pai da vítima, José Luiz Marquês.
O sentimento foi corroborado pelo irmão de Érica, que se sentiu aliviado.
“Fiquei muito satisfeito. Senti que a Justiça existe. Nós tínhamos receio da condenação ser modificada, já que a família dele é influente”, completou Jorge Marquês.
Ainda segundo os familiares de Érica, Breno também corre o risco de ser expulso da corporação.
Após a decisão do júri, a guarda do filho do casal também será discutida, já que hoje a criança não vive com os familiares maternos.